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sexta-feira, 14 de novembro de 2008


"em cloé, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se reconhecem. quando se vêem, imaginam mil coisas a respeito umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. mas ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam.
passa uma moça balançando uma sombrinha apoiada no ombro, e um pouco das ancas, também. passa uma mulher vestida de preto que demonstra toda a sua idade, com os olhos inquietos debaixo do véu e os lábios tremulantes. passa um gigante tatuado; um homem jovem com os cabelos brancos; uma anã; duas gêmeas vestidas de coral. corre alguma coisa entre eles, uma troca de olhares como se fossem linhas que ligam uma figura à outra e desenham flechas, estrelas, triângulos, até esgotar num instante todas as combinações possíveis, e outras personagens entram em cena: um cego com um guepardo na coleira, uma cortesã com um leque de penas de avestruz, um efebo, uma mulher-canhão. assim, entre aqueles que por acaso procuram abrigo da chuva sob o pórtico, ou aglomeram-se sob uma tenda do bazar, ou param para ouvir a banda na praça, consumam-se encontros, seduções, abraços, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que se toque um dedo, quase sem levantar os olhos.
existe uma contínua vibração luxuriosa em cloé, a mais casta das cidades. se os homens e as mulheres começassem a viver os seus sonhos efêmeros, todos os fantasmas se tornariam reais e começaria uma história de perseguições, de ficções, de desentendimentos, de choques, de opressões, e o carrossel das fantasias teria fim."

(as cidades invisíveis - italo calvino)

me faltam palavras, quando penso que preciso falar como me sinto;
me falta chão, quando você me abraça;
me falta verdade, quando digo que é passado o que sinto;
me falta eu, quando quero acreditar que não exite "nós dois";
me sobra amor, quando invento um mundo só seu;
sobre mim, você de sobra.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

a-marcelo

no submundo,
sob o céu negro, estrelado
carregando o sorriso
que conquista, encanta
sem querer, querendo.
artista por essência
andarilho do asfalto
faz da rua, seu palco
platéia livre, natureza
dança a música da cidade
na melodia do acaso.
carrega o mar em seu nome
e quando o sinal fexa
as portas de abrem:
o seu momento, o show
provoca sorrisos, aplausos...
o oasis, dentre o caos
uma pausa para o sonho
real.

a-mar sem elo

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

"se ela te fala assim, com tantos rodeios, é pra te seduzir e te ver buscando o sentido daquilo que você ouviria displicentemente. se ela te fosse direta, você a rejeitaria."




segunda-feira, 13 de outubro de 2008

apaixonar-te

deitadas, abraçadas
entro no seu ritmo
e a cada pulsação
eu me lembro de tudo que antes sonhei
sem imaginar, apenas desejos...
realizar-te
mesmo desacreditando, sempre querendo
nem eu sei o quanto quis, ainda quero
agora é mais que isso
tudo misturado: coisas que não sei dizer
uma paixão tão grande, anônima
que quer ser vivida...
viver-te.
tudo isso parece pouco
porque consigo enchergar que você é tão mais
porque quero que você sinta que eu tenho bem mais
eu não tenho nada, nem somos nada
e o seu não ser, me faz querer-te...

dai-me o que você não tem
daí seremos o não ser, me seja
dai, teremos o não ter, esteja
e sempre que não acordarmos
sonharemos no mesmo ritmo
abraçadas, deitadas
apaixonando-me, realizando-me, vivendo por
envolver-te.



"sonhei com você e, agora acordada, não consigo definir o que é sonho e o que é realidade nisso tudo."

eu

sonho, desejo, quero, espero, desespero, desperto, de perto, perdôo, odeio, apaixono, abraço, beijo, amo, confio, desconfio, desconto, dez conto, canto, caio, levanto, levo, lero, converso, com verso, inverso, avesso, as vezes só, as vezes não, coração, emoção, caminhão, papelão, cidadão, cidade, idade, felicidade, fidelidade, maldade, malandragem, mala andante, amarante, maré, mar, chamar, acalmar, acalentar, apacentar, desenhar, desdenhar, descuidar, cuidar, dar, receber, perceber, pra saber, praça beber, bebê, bem, também, quem, alguém, ninguém... qualquer coisa, coisa nenhuma.

serenata sem estrelas.
pra quem eu canto?
por que eu canto?
num canto,
meu canto,
encanto,
encano,
encaro,
encarno,
minha carne,
desejo.